O Dom do novo mundo possível
Em tempos de Fóruns Globais a atualidade do pensamento de Dom Hélder Câmara chega a ser estonteante! Se vivo fosse Dom Hélder (1909-1999) estaria com 101 anos. Em uma revisão extremamente sumária de sua biografia cabe destacar que representa o que São Paulo, teólogo dos carismas, afirma na Primeira Carta aos Coríntios (12-27;30): Na Igreja há diversidade dos carismas. De Dom Hélder podemos dizer que recebeu a graça de ter todos os carismas.
A contribuição que deixou para a criação de um mundo pautado por uma ordem social mais justa e por uma cidadania plena é uma referência para a humanidade.
Nascido em Fortaleza, Ceará foi ordenado padre aos 22 anos. Transferido em 1936 para o Rio de Janeiro adotou como desafio antecipar soluções pastorais em prol dos que vivem na pobreza e na indigência. Em 1952 criou a CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que expressa a possibilidade de mudança na ação do episcopado, “mudança possível no momento em que valores genuínos do pensamento cristão foram repensados para a promoção da solidariedade e ampliação da cidadania. Foi sagrado bispo auxiliar do Rio de Janeiro. No Concílio Vaticano II,o grande articulador em prol da renovação da Igreja. Depois de 1964 e após 28 anos de ação no Rio de Janeiro, transferido para Olinda/Recife. Indicado para o Prêmio Nobel da Paz por 7 vezes. Recebeu título de Doutor Honoris Causa de mais de 30 universidades.
Dom Hélder tinha uma preocupação maior em superar a pobreza. Este é o ponto para o qual queremos chamar a atenção! Acreditava na importância da militância dos pequenos grupos, na militância dos leigos e em seu papel de transformação da realidade excludente e geradora de desigualdades. É o tal círculo virtuoso: ele despertava pessoas com capacidades e recursos para contribuir de maneira mais ativa com os mais pobres, para que os pobres tivessem igualmente a oportunidade de despertar e melhorar suas condições de vida, como protagonistas de um novo destino. E todos se transformavam em pessoas melhores!
Um belo testemunho desta convicção foi a criação do Banco da Providência (1959), “um banco para os pobres que não têm acesso aos bancos do sistema financeiro”. Dom Hélder inventou um novo padrão para a filantropia. Implementou, em 1959, três conceitos que só muitos anos depois vieram a ser exigência de qualificação em projetos sociais:
-
auto-sustentação. Para isto criou a Feira da Providência, principal fonte de arrecadação de recursos.
-
sociedade civil organizada. Assim, imprimiu aos seguidores de suas idéias o compromisso da esfera religiosa atuar como importante articuladora da sociedade civil.
-
voluntariado, como o principal eixo de sustentação destes valores compartilhados.
Hoje, ao completar 50 anos de atuação no município do Rio de Janeiro, o Banco da Providência focou sua ação no Programa de Inclusão Social de Famílias. Passou por um programa de planejamento estratégico com o apoio da Fundação Brava e do Instituto de Desenvolvimento Gerencial. Adotou modernos instrumentos de gestão e implementou a cultura de trabalhar com metas de inclusão social. Estes conceitos compõem a estratégia atual do Banco da Providência. Sobretudo, colaborar em promover o desenvolvimento humano. Mantém-se fiel ao exercício da solidariedade, condição necessária à ampliação da cidadania.
Este é o desafio dos que receberam de Dom Hélder o legado de continuar o Banco da Providência: a prioridade tem que ser a pessoa humana e sua dignidade! Em tempos de Fóruns Globais vamos seguir as lições de Dom Hélder.
A contribuição de Dom Hélder para um mundo mais humano e fraterno
Promoção da mudança de orientação da ação dos católicos: sai de cena a ética paternalista cristã com a necessidade de fazer caridade individual e passa a ser importante o exercício da solidariedade.
Valores genuínos do pensamento cristão são fundamentais para a promoção da solidariedade social necessária à ampliação da cidadania.
Substituir caridade por solidariedade não é uma mera questão de palavras. É uma substituição de uma ação de caráter assistencialista por uma ação que busca a autonomia do ser humano. Que visa à emancipação das situações que levam à exclusão.
Para Dom Hélder a exclusão social apresenta pelo menos 3 graus:
-
fica-se à margem dos benefícios e serviços que decorrem do progresso econômico.
-
fica-se à margem da criatividade.
-
fica-se à margem das decisões.
Palavras de Dom Hélder: “Firmemo-nos na opção de ultrapassar o mero assistencialismo para clamar por justiça social como caminho para a paz”.